2º ATO – RECITAL INSTRUMENTAL

Navegar é preciso

 

“Recital Instrumental” é o nome do segundo ato do disco OXEAXEEXU do BaianaSystem. Dividido em três atos, o novo álbum, que iniciou com o “Navio Pirata” lançado na sexta-feira de Carnaval, segue agora para um momento de transição que marca o meio dessa viagem. Num percurso que segue por uma rota “afrolatina” e seus afluentes, o “Recital Instrumental”, como o nome sugere, mergulha no universo sensorial da música e suas muitas camadas, priorizando o instrumental como parte fundamental e necessária para a música do BaianaSystem. 

 

A palavra cantada, aqui, reduz sua velocidade e projeta-se como mais um instrumento no papel de contar essa história que agora está em pleno mar, captando os sons que vêm de muitas direções, diminuindo as fronteiras da fala através de melodias. Cordas, metais, madeiras, percussão, synths e beats constroem esse momento banhados do sentimento de transformação que o som promove. Este ato se apresenta em cinco peças que funcionam como uma transição para um novo lugar, um novo mundo, que se coloca diante de nossos olhos como uma esperança possível, um sentimento renovado em direção à América do Sol.

 

FICHA COMENTADA 

RECITAL INSTRUMENTAL 

 

O mergulho começa ao som de “Tubarão”, faixa amarrada no groove/tema preciso do produtor SekoBass, que traz na sua base uma condução do beat em diálogo com a percussão de Ícaro Sá e Japa System  , já deixando nessa abertura uma marca do som do BaianaSystem. Sopradas através do Atlântico, as melodias das flautas e sax de Joander Cruz chegam trazendo à bordo os convidados para participar desse recital. Joander é de Itapetinga, interior da Bahia, e depois de vir para Salvador em 2009, desponta como um grande talento da música instrumental ligado ao jazz e ao experimentalismo. Hoje morando em Viena (Áustria), ele faz parte dessa nova safra que revitaliza a tradição instrumental da Bahia. 

 

E como uma extensão de “Tubarão” temos a “Barbatana”, que permite direcionar nossos sentidos para águas mais profundas e também ir e vir com muita sagacidade na superfície. É aí que entra todo o talento de Junix 11. Um incrível guitarrista, produtor, compositor e que vem há muitos anos colaborando para a música produzida na Bahia em muitos campos. Desde artistas de maior destaque do universo pop, até grupos de rock e experimentais, passando por samba, eletrônica, progressivo, Junix imprime sua marca sempre de maneira definidora. Parceiro do BaianaSystem há muitos anos, em Barbatana ele compõe e toca todos os instrumentos.

 

Mantendo o tom da narrativa para abrir um novo capítulo, o piano do Maestro Ubiratan Marques desenha as linhas da peça “Criado Mudou”. Criador, regente e diretor artístico da Orquestra Afro Sinfônica,  Bira já vem num processo de construção junto ao BaianaSystem desde a composição da Sinfonia do Fogo e em seguida do álbum “O Futuro não Demora”, de onde surgiram os muitos caminhos explorados nas apresentações ao vivo e em estúdio, trazendo toda sua bagagem de arranjador, compositor e instrumentista essencial para entender a música  produzida na Bahia. Ao lado de Bira nessa peça vem a construção fundamental de Daniel Ganjaman. Produtor deste disco (“OXEAXEEXU”) e dos dois anteriores, Ganja traz uma nova atmosfera com a construção dos beats, com as camadas de synth e bass synth, e os efeitos que conduzem o piano e a voz para novos lugares.

 

Aí começam as interferências captadas em alto mar pela “Rádio África’’, que junta as transmissões do DJ Sankofa (conexão Gana-Bahia) com piratas de muitas regiões. A Guitarra Baiana assume os auto-falantes do navio remontando a essência da sonoridade do BaianaSystem e envia melodias pelas ondas até o produtor, guitarrista e parceiro na faixa Cássio Calazans. Morando há alguns anos em São Paulo, Cássio é de Salvador, do bairro da Liberdade, e vem de uma família musical importante. Já produziu muitos trabalhos e tocou com diversos artistas.  Ele assina a produção dessa faixa, onde também fez programação de beat, synths e grava guitarras adicionais. 

 

As transmissões aqui são interrompidas pelo som cortante do trompete que anuncia  “Guerra Batalha”. A peça é construída a partir de um arranjo de sopro do Maestro Ubiratan Marques que, inspirado nas referências modernistas brasileiras, escreve também para a voz grandiosa da cantora mezzo soprano Liz Reis. Liz faz parte da Orquestra Neojibá desde os 15 anos de idade, onde teve sua formação musical e experiência como corista. Faz parte também do projeto “ópera estúdio” da UFBA  e hoje segue carreira como cantora de ópera, além de poetisa. Para o naipe que executou esse arranjo Bira convidou um time de músicos incríveis formado por:

 

João Teoria e Rudnei (trompete), Gilmar Chaves e Franclin (trombone), Nilton (sax alto e flauta) e Vinícius Freitas (Sax barítono). Esses músicos têm em comum, além de tocar em importantes orquestras da cidade como Orquestra Afro Sinfônica e Orkestra Rumpilezz, o fato de a sua maioria vir do Recôncavo Baiano, que tem na tradição das Filarmônicas uma grande importância na formação dos instrumentistas de sopro, que trazem consigo uma linguagem herdada do samba, do choro, das marchas e da cultura popular tão viva nessas cidades. As Filarmônicas são responsáveis por unir diferentes mundos e construir um universo sensível para o entendimento de nossa música brasileira instrumental.

 

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